As Ordens Profissionais... Por José Lima

Sou marido e filho de professoras, dou aulas num instituto politécnico e, além disso, sou membro de duas ordens profissionais. Julgo ter a experiência pessoal para poder dar um contributo válido a esta discussão, até porque muitos dos comentários que tenho lido fazem-me pensar naquelas pessoas que não gostam de sushi mas também nunca provaram. 

Tenho lido que os professores “não precisam de ordem nenhuma” porque têm os sindicatos. Os sindicatos, que por acaso são mais de vinte, são organismos orientados para a negociação salarial atuando mais ou menos da mesma forma desde o 25 de Abril, com os resultados que são do conhecimento de todos. Poderão alguns arguir que estávamos bem pior sem eles, pois bem, também estávamos bem pior sem água nas torneiras ou eletricidade, e não é por isso

que deixamos de tentar que o nosso futuro seja melhor que o nosso passado. 

O que acontece com a forma como a profissão está organizada (ou “não organizada”) é a criação de um status quo em que o grau de insatisfação dos professores é gerido. Isto é: existe um valor mínimo de salubridade que tem de ser mantido porque interessa a todos. Interessa ao governo porque permite reduzir despesas com pessoal, interessa aos sindicados porque lhes permite continuar a “luta” e a sua existência, interessa às editoras para poderem fazer manuais novos todos os anos e por aí fora. Só não interessa aos professores, que de facto não são mais do que operários, soldados rasos do sistema de ensino. Basta ver a facilidade com que são concedidos três dias aos professores para irem com a casa às costas tentar ensinar alunos do outro lado do país. Porquê apenas três dias? Mero requinte de malvadez, se querem que vos diga. 

Dirão então que a culpa é da insensibilidade do governo e que os sindicatos têm lutado por todos os meios possíveis para inverter a situação. Se não conseguiram a culpa não foi deles!

Sou contabilista certificado e este ano, assim como em outros anos, o estado, esse mesmo estado que não se pode organizar para colocar os professores quinze dias antes do início do ano letivo, fez asneira com o sistema informático da autoridade tributária, provocando atrasos também no nosso trabalho. O que aconteceu? Tivemos 30 dias de prorrogação do prazo. Não estou a falar de uma mera extensão de uma qualquer data sem utilidade: o estado recebeu milhões de euros de IRC 30 dias mais tarde. Apesar disso, prevaleceu o interesse dos contabilistas, e isto porquê? Porque somos uma classe de profissionais que se soube descomplexar da ideia do “proletariado” e da “luta” e que bem cedo se organizou como Câmara e depois como Ordem.

Na dicotomia entre profissionais organizados como ordem ou desorganizados e espalhados por 23 sindicatos, não ganha apenas a força de quem fala a uma só voz, mas também a legitimidade de quem tem funções próprias, mais extensas que a representação de membros em supostas negociações laborais, e legitimadas pela lei. Os estatutos de uma Ordem são uma lei, publicada por decreto e de cumprimento obrigatório. Enquanto contabilista eu tenho uma lei que me defende e uma organização com todos os meios para a fazer cumprir.

Por tudo isto, vejo os argumentos contra as ordens profissionais vazios de conteúdo até porque não conheço nenhum caso em que se tenham criado movimentos para acabar com ordens profissionais, em Portugal são já 16 as profissões assim organizadas e nenhuma delas está pior que os professores!

 

 

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